Quando a mania vira doença

15/05/2011 16:23

Quando é que uma mania inofensiva vira obsessão? O que separa o capricho de querer ver uma casa limpinha de uma doença? Qual a diferença entre uma criança com curiosidades e medos comuns de outra que começa a sofrer de um transtorno de ansiedade? O Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) já atinge 4% da população mundial. Para entender o problema, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva escreveu o livro Mentes & Manias em 2008. Agora ele é relançado, com nova organização e referências atuais.

Entrevistar essa médica, autora de best-sellers como Mentes Perigosas – O Psicopata Mora ao Lado, Bullying – Mentes Perigosas nas Escolas e Mentes Inquietas, é sempre interessante. Não só pelo conhecimento profundo das doenças, mas também pelo prazer que ela tem de tornar esse conhecimento acessível a tantas pessoas. Ela diz que é uma observadora desde sempre e que a mente humana é o alvo de sua maior curiosidade.

Ana Beatriz gosta de enfatizar o lado positivo de muitas pessoas que sofrem de TOC. “O que o portador de TOC almeja é uma condição mental que o permita ter organização, senso crítico, capricho, persistência, responsabilidade. São características positivas, que muita gente gostaria de ter. O problema é o exagero, o desequilíbrio”, afirma.

Ana Beatriz Barbosa Silva falou ao Mulher 7×7:

Como distinguir uma mania inofensiva de uma doença?

Há doença quando esses pensamentos obsessivos, sempre negativos, começam a influenciar no dia-a-dia de maneira significativa. Tenho uma paciente que trabalha às 10h num bairro perto de casa. Ela levantava às 8h pra sair de casa às 9h. Aos poucos, foi levantando cada vez mais cedo por causa de procedimentos cada vez maiores, até que passou a acordar às 3h da manhã. O banho tinha etapas, xampus especiais, repetições de procedimentos. Ficou impossível. Até que ela se mudou para o mesmo bairro em que trabalhava. Mas em vez de acordar mais tarde, inventou mais necessidades e passou a acordar ainda mais cedo. A vida ficou impossível e ela procurou tratamento. Esses rituais compulsivos escravizam as pessoas que sofrem de TOC.

O TOC é um dos piores transtornos de ansiedade?

Existem os transtornos leves, como a tensão da véspera de uma prova importante, até algo como uma síndrome de pânico – que está no extremo de uma curva pontiaguda de ansiedade. O TOC pode ser caracterizado como um platô no ponto máximo da ansiedade. É o pior – o tempo todo. O sofrimento é enorme. As pessoas são reféns delas mesmas.

O que desencadeia o TOC?

Antes de tudo, há o fator genético. Parentes de primeiro grau de alguém que sofre de TOC têm 35% de chance de também ter, se for parente de primeiro grau. Os de segundo grau têm entre 15% e 20% de chance. A doença está lá, esperando o momento de sair. Mas é preciso um gatilho, um trauma, para que ela comece a se manifestar. E aí varia muito.

Por que algumas pessoas têm um tipo de TOC e não outro?

Isso está na história e nas possibilidades de cada um. Mas todos têm, em comum, pensamentos horrorosos. Como se algo pavoroso fosse ocorrer se eles não seguirem aqueles rituais, aqueles procedimentos.

Há mais pessoas com essa doença hoje em dia ou ela é apenas mais reconhecida?

As pessoas estão se informando mais. As pessoas com TOC tinham um sentimento solitário, achando que aquilo só acontecia com elas. Até a década de 80 se achava que era uma doença rara que só atingia 0,2% da população do mundo. Simplesmente não era contabilizada. Nos anos 90, quando lançaram o filme Melhor Impossível, com Jack Nicholson, houve uma explosão de diagnósticos nos Estados Unidos. As pessoas pensaram: caramba, eu imaginava que só eu tinha isso. Nos anos seguintes, o percentual de pacientes de TOC subiu para 2%. E hoje está em 4% – mais do que diabetes. Aqui no Brasil, os diagnósticos aumentaram muito depois que Roberto Carlos admitiu que tinha a doença, há cerca de oito anos. Um ídolo como ele, que não foge do assunto, que conta que está se tratando, aumentou a coragem das pessoas para também procurar ajuda.

O TOC dá sinais na infância?

Sim. Os pais devem prestar atenção nos comportamentos obsessivos. É importante dizer que toda criança tem uma fase, por volta de 6 a 8 anos, em que tem pensamentos obsessivos. Ela acaba de passar pelo que chamamos de processo de subjetivação. Muito pequena, a criança pensa que ela e a mãe, o pai, são a mesma coisa. Quando ela começa a perceber que não, ocorre a ansiedade de separação. Então o menino ou menina não quer desgrudar da mãe, chora quando ela demora a chegar, etc. Isso é normal. Mas se essa ansiedade continuar no futuro, se transformando em medo de ficar sozinha, em pesadelos repetidos, já se acende uma luz vermelha para mostrar que os níveis de ansiedade estão maiores do que o normal.

Mais tarde, na adolescência, que outros sinais podem ocorrer?

Medo de sair, a não ser que seja com os pais, não quer andar pela rua sozinho, faz perguntas repetitivas. Também aparecem tiques: roer unhas ate sangrar, morder cabelo, arranca sobrancelhas e cílios. Talvez seja hora de começar o tratamento. Quando nós, psiquiatras, recebemos uma criança para tratar TOC, é um alívio. É a garantia de que podemos curá-lo ou deixá-lo com um grau leve da doença.

É possível tratar a doença só com terapia?

Não. É preciso sempre remédio, mesmo que sejam crianças. Na maioria das vezes, antidepressivos, associados à terapia cognitivo-comportamental. Não se corta o ciclo do pensamento de um doente de TOC apenas com terapia. A tendência dos rituais é sempre ir aumentando. Não há caminho de volta natural.

As compulsões mais comuns do TOC são:

Limpeza e lavagem: lavar-se em excesso a ponto de irritar a pele; banhos intermináveis.

Ordenação e simetria: rituais desgastantes para que as coisas fiquem absolutamente organizadas ou simétricas, sem necessidade.

Verificação: conferir inúmeras vezes janelas, portas, botões de fogão, torneiras, bicos de gás, ou se o despertador está mesmo programado, etc.

Contagem: contar até dez em ordem crescente ou decrescente; ou até determinado número para expulsar pensamentos ruins; ter que repetir uma ação um determinado número de vezes.

Colecionamento: entulhar a casa com caixas, jornais, vidros, manuais, garrafas plásticas, laços de presentes, restos de lápis.

 

Fonte: http://colunas.epoca.globo.com/mulher7por7/2011/05/13/quando-a-mania-vira-doenca/