O TDAH E OS PROFESSORES: UM DELICIOSO DESAFIO

16/05/2011 19:49

É muito difícil passar na frente de uma escola e não lembrar do cheiro gostoso da antiga cantina, do material novo e da tia Terezinha, minha primeira professora. Sempre que visito uma escola ou recebo ligações de coordenadores de ensino, tenho a sensação de encontrar pessoas que acreditam em um mundo melhor. Estou sempre me surpreendendo com a criatividade e capacidade de percepção que alguns professores apresentam.

Lembro sempre do caso de Pedro, um aluno de 11 anos. Logo que iniciamos o seu acompanhamento, pedi um relatório escolar e deixei meus telefones caso a coordenadora tivesse alguma pergunta ou preferisse uma conversa informal. No mesmo dia que a mãe me trouxe o relatório a professora Flavia telefonou.

“Doutor, eu sou a professora de matemática do Pedro e também a coordenadora da sua turma, pedi para os professores escreverem a impressão que tinham dele na sala de aula. Todos descreveram Pedro como desatento, agitado, sem foco, com dificuldade de ficar parado e muito desorganizado. Fiquei preocupada, e tive a sensação de que estávamos falando de outra criança. Nas minhas aulas ele é um dos melhores, percebo sua empolgação quando consegue resolver um problema, parece que cada etapa em uma equação é um desafio que ele tem que vencer, por vezes fica tão animado que começa a assistir à aula em pé, pergunta o tempo todo, se adianta nas respostas e adora quando é parabenizado. Já a professora de história sente que Pedro está sempre entediado, impaciente, nunca leva seus materiais e vive pedindo para ir ao banheiro. A professora de redação relatou que ele é muito criativo, mas tem dificuldades de colocar as ideias no papel, por isso tenta sempre “enrolar”, conta que um dia percebeu que Pedro estava levantando muito para ir apontar o lápis, resolveu contar e chegou à conclusão que ele tinha apontado 12 lápis, até serem acabados, em um período de 30 minutos, tudo para não ter que escrever. Outros professores notam que ele sabe os temas, é inteligente, consegue argumentar muito bem e surpreende pela rapidez de raciocínio mas sempre fica de recuperação”.

Depois de ouvir atentamente as colocações da professora Flavia, falei que aquela era a clássica descrição dos comportamentos de uma criança com TDAH no ambiente escolar. A mesma criança que se mostra extremamente motivada em uma matéria ou por um professor pode estar dispersa e entediada em outra atividade. Nessa e em outras conversas sempre surge a seguinte frase: “Ele é muuuuito querido aqui na escola, mas é um desafio para todos!”

Nossa conversa se estendeu e então veio a ideia de fazermos uma breve lista de perguntas mais comuns feitas por educadores.


Como deve ser o ambiente de estudos de uma criança com TDAH?

As crianças que apresentam comprometimentos na capacidade atencional têm muitas dificuldades para se organizar. Necessitam, portanto, de ambientes ordenados, consistentes e previsíveis, com estabelecimento de normas e limites muito claros.


Muitas crianças com TDAH não conseguem terminar as tarefas propostas nos tempos determinados. Como podemos ajudá-las?

É importante ajudá-las a planejar o seu tempo desenvolvendo um horário no qual as horas da aula sejam divididas em períodos bem definidos. As atividades executadas em cada período devem ser detalhadas. Isso lhes permite planejar de uma forma clara, visualizar a ordem que seguem as diferentes aulas e pode ajudá-las com a orientação temporal.


Como orientar as tarefas na sala de aula?

Devemos recordá-las constantemente do que devem fazer, sendo muito precisos a respeito do que esperamos delas. Essas crianças levam mais tempo que outras para interiorizar alguns objetivos e metas, porém conseguem fazê-los.


Como orientar as tarefas e lições de casa?


É muito útil o uso de uma agenda que funcione como meio de comunicação entre a casa e a escola. Sua finalidade é levar um controle dos progressos da criança e anotações sobre os deveres. Precisamos de contato frequente com os pais, sempre cultivando uma relação cooperativa.


Como evitar que a criança perca o foco nas explicações e atividades?

O contato visual entre professora e aluno é muito importante. Este contato pode ser utilizado de diversas formas: olhar para fazê-la entender que está agindo adequadamente, para que volte a se conectar com a aula quando notamos que está dispersa etc. É conveniente colocar a criança num local da sala onde este contato com a professora seja facilitado.


Que estratégias didáticas podemos usar para melhorar o aprendizado de um TDAH?

As instruções para trabalhos e atividades devem ser apresentadas de forma clara e concreta. Devem ser dadas tanto na forma verbal quanto escrita.

A aula deve manter um fio condutor. Quando pula-se de um tema a outro, é fácil que as crianças se percam. É de grande utilidade trabalhar com material de apoio visual e concreto. Utilizar exemplos da vida prática também facilita o entendimento.

Quando uma aprendizagem é bloqueada não se deve insistir nela. É necessário facilitar novos elementos para que a criança os integre e consiga chegar à solução por outro caminho.


Como melhorar a autoestima das crianças com TDAH que têm dificuldades na escola?

É de fundamental importância ajudar a criança a compreender que suas dificuldades não existem por falta de capacidade. O aluno deve sentir que o professor não se decepciona com ela por apresentar dificuldades. Tente deixar a criança segura disso e depois procure criar um ambiente lúdico, desafiador e estimulante, onde ela terá a sensação de que será gratificada com os acertos e não punida com os erros.

Os adultos que trabalham com essas crianças sabem exatamente o que elas NÃO podem fazer. Poucas vezes é mencionado o que fazem bem ou as áreas nas quais existem pontos fortes.


Como devem ser as avaliações destas crianças?

Além das avaliações formais devemos buscar outras formas de conceitos onde a criança tenha a oportunidade de mostrar seus conhecimentos. Muitas crianças levam mais tempo para terminar uma prova, outras se saem melhor em discussões ou provas orais. A avaliação formal, escrita e com limite de tempo restrito pode não avaliar o conhecimento que determinada criança acumulou, gerando uma sensação de frustração, perda ou injustiça.

Devemos tentar sempre avaliar o processo de aprendizado e não somente os resultados. Uma avaliação qualitativa deve ser mais importante que a quantitativa. Empenho, criatividade e capacidade de resolução de problemas devem sempre ser considerados. Cada criança é um ser humano único e importante. Respeitar essa individualidade, aceitar diferentes formas de pensar, de sentir, de agir e, principalmente, de aprender é um ponto básico na educação destes alunos.

Autoria: Dr. Leandro Thadeu Garcia Reveles

Fonte: http://www.medicinadocomportamento.com.br/textos_temaslivres5.php